Não existe amor em Porto Alegre
Eu andei pela Lima e Silva algumas horas. Entrei na República antes das 18h, já estava escurecendo. Meus olhos encontraram, ao longe, um rosto conhecido. Eu fiquei nervoso, não esperava encontrar ninguém. É normal, claro, que a Cidade Baixa fique cheia essa hora de sábado, mas é como se a gente sempre achasse que controla o destino.
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Ele também me viu. Deu pra ver no olhar fixo e no sorriso sem graça. Me veio o beijo dele na mente, naquela festa no dia do meu aniversário. A mão andando pelo corpo como se procurasse alguma coisa. Os lábios se encontrando enquanto aquela música alta, quase ininteligível, tocava. Risos altos e pessoas bêbadas cambaleando ao nosso lado.
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Nada importava, era o beijo que importava. Sei lá, era tipo um beijo que deveria ter acontecido há muito tempo, mas precisou um acaso para fazer acontecer. Não é como se a gente tivesse planejado se encontrar naquela festa em agosto, comigo comemorando meus 28 anos e meus amigos rindo de piadas que eu nem sequer ouvi.
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Mas, também não era como se a gente tivesse planejado se encontrar na República, às 18h de um sábado, quando eu estava voltando do mercado com sacolas nas mãos, pronto para fazer o jantar e ficar no sofá vendo mais uma série que eu ainda não consegui colocar em dia. Não, a gente não planejou.
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E em minutos, poucos, os olhares se encontraram. O sorriso de “eu te conheço” se abriu. E eu passei por ele, com um único toque de mãos, como quem cumprimenta uma pessoa que já viu por aí, mas que não era tão íntimo assim. E segui o caminho. E ele ficou lá. E a gente não se viu mais.
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É, não existe amor em Porto Alegre.


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